terça-feira, 5 de julho de 2011

OS RATOS

Michel Henry: o jovem oficial – um romance em torno da condição humana! COM CONTORNOS POLÍTICOS?
Florinda Martins

1. O romance

Os ratos[1] narram a tarefa de que é incumbido um jovem Oficial da marinha: desratizar o navio. O Comandante chama o Jovem Oficial, põe-no ao corrente do estado da arte: das tentativas já efectuadas para resolver o problema, das técnicas utilizadas, nomeadamente, a brochura publicada pela Direcção Central dos Serviços de Saúde do Ministério da Marinha e do insucesso das mesmas.

Meio incrédulo quanto à veracidade da tarefa que lhe fora proposta – se era assim tão importante e de tão difícil execução, por que lha confiariam a si, o mais inexperiente dos marinheiros, a bordo? – o jovem oficial resolveu, discretamente, inteirar-se dos factos de que fora informado, não fosse estar a incorrer numa armadilha de praxe. Assim, tudo foi cuidadosamente testado: desde verificar se havia ou não a bordo um marinheiro a quem um rato roera o nariz, passando pelo sistema de prémios – era oferecido a cada marinheiro um quarto de copo de vinho por cada cabeça de rato capturado, em armadilhas - até ao método de asfixia completa de todos ratos do navio. E com a verificação dos factos inteirou-se também dos respectivos inconvenientes que deles resultavam: o ridículo das situações, no caso dos prémios; a epidemia que os corpos dos ratos em putrefacção ia causando no navio, no caso da asfixia. Neste último caso, os ratos mortos eram um perigo maior que vivos. Daí que com a narrativa dos insucessos até então experienciados pelos marinheiros, a bordo, surgissem tentativas de novas abordagens à questão dos ratos.

O médico de serviço, com quem o jovem oficial se deparara casualmente, avisa que «não se deve ir contra a vontade da natureza; os ratos constituem uma espécie que existe no nosso planeta tal como os macacos ou os homens, não havendo qualquer razão para os suprimir, e ainda que o quiséssemos não conseguiríamos. O melhor seria conviver com eles; habituarmo-nos à sua companhia[2]». Um pacto impossível dado que aqui não se trataria de afirmar uma força, mas da confissão de uma incapacidade cujo poder consistia apenas em resignar-se. Ora a tarefa do jovem não era a busca de uma convivência pacífica com os ratos, mas a sua eliminação. Uma tarefa que só a ele dizia respeito, ele a quem ninguém podia ajudar pela simples razão de «ninguém estar na posse desse poder»[3]. O jovem oficial terá de procurar sozinho a solução para o problema do navio não em virtude da ordem do Comandante, mas por razões até aqui ausentes no decurso da narrativa: «cada um conhece por si mesmo como é que os ratos entram no navio»[4]. Por isso vai prestar atenção à experiência de si. E o romance prossegue no cruzamento dessa experiência interior - pela qual cada um conhece como entram os ratos no navio e desse modo fazê-los sair do mesmo modo que entraram – com o apelo a circunstâncias exteriores que tornam urgente a descoberta da solução para os ratos. O autor evoca o ritual da passagem do navio pelo Equador para narrar a urgência da solução – devido ao calor, os ratos proliferavam e deixavam marcas na vida do comandante, roendo-lhe a camisa – e dá contas da estratégia encontrada na meditação sobre o problema. Essa passa por avaliar o carácter estranho do inimigo que lhe foi dado combater - aparece de novo, no romance, a ambiguidade entre o exterior e o interior. A primeira situação de estranheza tem a ver com a desproporção das forças em combate: o combate aos ratos difere de um combate entre humanos, entre forças que dispõem de meios equivalentes. No caso dos ratos, estes apresentam-se desprovidos de todas essas qualidades: «Os ratos são animais imbecis e limitados que obedecem cegamente a um sistema de instintos e forças obscuras dos quais são fantoches e os quais ignoram em absoluto»[5]. O que se torna humilhante para o combate: os seres que queremos combater estão completamente desprovidos de qualquer poder e, antes de mais, de se darem conta de um perigo que ameaça; o que não é nada vantajoso para o nosso amor-próprio. A prová-lo está o recurso ao humor que confessa disfarçada mas inequivocamente a nossa incapacidade face a essa vil força ou ainda o ódio e a raiva contida que se adivinha por detrás da bonomia perante a questão dos ratos. Não os censuramos por pilharem provisões ou por roerem sacos...Trata-se de outra coisa: de algo vil – sem inteligência nem consciência - algo inferior que nos domina, se opõe à nossa vontade e à qual temos de nos submeter. O que não perdoámos aos ratos é uma tal humilhação. Baixarmo-nos ao que é mais baixo que nós. Então só nos resta esquecer a vergonha ou então transformar a incapacidade numa pretensa superioridade que nos permite a atitude paternalista de conviver com os ratos: 1) divertimo-nos com eles, 2) fingimos tolerá-los quando 3) não podemos destruí-los pela asfixia ou envenenamento.

Assim, para o Jovem Oficial, as técnicas até então usadas tinham como finalidade iludir tão-só a incapacidade da tripulação: evitar o desespero que traz a impotência perante o rato. Essa era a fraudulenta subtileza das antigas técnicas: permitir o sentimento de superioridade. O seu desígnio seria apenas esconder[6] através de mistificações e disfarces[7] a impotência que habita cada um de nós. E a referência à mais sofisticada procura de legitimação dessa impotência identificada com o mal do mundo não se faz esperar: «é preciso estar muito seguro de si para erguer a voz contra o estado de coisas existente e pretender substituí-lo por uma ordem melhor»[8].

Porém não é digno de um oficial, ainda que de um jovem oficial se trate, qualquer atitude de má-fé. Aquele não pode deixar-se enganar, mas ousar encarar a dificuldade se a quiser vencer. [9] Para tal será preciso denunciar o equívoco inerente ao cepticismo, à ironia e ao falso poder; não renunciar à desratização; atender à contradição interna que o rato traz em si e que se mostrou aquando da morte dos ratos por asfixia: um desejo insaciável que obrigou, logo que possível, o embarque de ratos para que comessem os seus parceiros em putrefacção. Ora, sendo os ratos insaciáveis e hiperactivos: diminui-se-lhes o alimento, a bebida e o espaço de circulação e eles irão procurar outros lugares. Foi assim que a desratização se fez.

Por algum tempo se viveu a bordo uma nova ordem das coisas denominada agora de «uma nova ordem moral»: um navio sem ratos, eliminados pelas suas próprias contradições[10]. Mas numa das idas a terra, em busca de provisões, eis que alguém põe num saco de farinha uma ninhada de ratos....O problema permanece intacto[11]!

2- Questões em análise

a) os ratos – símbolos do mal e ou do inconsciente?
b) O jovem oficial – sem nome próprio, ainda jovem, com a tarefa de resolver o que outros consideram impossível?
c) Romance com contornos políticos? – próprios da Europa ? Apenas?


[1] Título original do romance O jovem oficial, alterado apenas por exigências editoriais.
[2] Michel Henry, Le jeune officier, pp. 34-35. Quanto a este tema da afirmação de todas as forças da vida cf. ainda Michel Henry,Genealogia da Psicanálise, capítulo VII – «Vida e afectividade segundo Nietzsche», Editora UFPR, 2009 e «Sur la parole de Nietzsche: «Nous les bons, les heureux...» in Michel Henry, De la Subjectivité, T. II, PUF, 2003, pp. 147-161.
[3] Le jeune Officier, o. c, p. 60.
[4] A semelhança com Kierkegaard, muitas vezes citado por Henry «Cada um sabe por si mesmo como é que o pecado entra no mundo».
[5] Le jeune Officier, o. c. pp. 94-95.
[6] Le jeune Officier, o. c. pp. 106-107.
[7] Le jeune Officier, o. c. pp. 108-109.
[8] Le jeune Officier, o. c. pp. 111-112. Ver ainda Michel Henry, «Théodicée dans la perspective d’une phénoménologie radicale» inPhénoménologie de la vie, T IV, pp. 81-94.
[9] Le jeune Officier, o. c. pp. 110-111.
[10] Le Jeune Officer o.c. p. 138, porém a similitude desta nova ordem moral com a táctica de Clausewitz não esconde o âmbito bélico da solução!
[11] Também no romance Le fils du roi a questão do mal e do sofrimento fica sem saída. Ver Florinda Martins, «O impossível do sofrimento – indecisões fenomenológicas no romance Le fils du roi», in Filosofia, Revista da Faculdade de Letras, Universidade do Porto, II Série, Volume, XIX, Porto 2002, pp.141-155.
Compartilhe:

0 comentários:

Postar um comentário