Gostaria de propor uma leitura fenomenológica do cogito de Des-
cartes. Tal projecto suscita imediatamente as maiores reservas. Estas
prendem-se com a própria intenção de compreender o pensamento car-
tesiano a partir de um outro que chegou mais tarde. Este pensamento
ulterior, porventura mais elaborado, sofreu inúmeras influências e apre-
senta procedimentos, sistemas de conceptualização que não existiam na
altura em que se formaram as doutrinas que se intenta esclarecer. Mas,
em vez de esclarecer, essa projecção retroactiva não deve antes falsificar
aquilo que estava contido nas intuições que se quereria reactivar? Uma
leitura fenomenológica do cogito pode ser outra coisa que não uma inter-
pretação? Com uma única condição: que o cogito de Descartes constitua
o acto de nascimento da própria fenomenologia. Nesse caso, um estudo
fenomenológico do cogito não só é possível como também é o único pos-
sível. Que a fenomenologia define a única via de acesso àquilo que é
pensado e deve ser pensado no cogito, é a minha primeira tese.
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